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sábado, 29 de setembro de 2012

CABALA





 Origem

A "Cabala" é uma filosofia esotérica que visa conhecer a Deus (D'us) e o Universo, sendo afirmado que nos chegou como uma revelação para eleger santos de um passado remoto, e reservada apenas a alguns privilegiados.
Formas antigas de misticismo judaico consistiam inicialmente de doutrina empírica. Mais tarde, sob a influência da filosofia neoplatônica e neopitagórica, assumiu um caráter especulativo. Na era medieval desenvolveu-se bastante com o surgimento do texto místico, Sefer Yetzirah, ou Sheper Bahir que significa Livro da Luz, do qual há menção antes do século XIII. Porém o mais antigo monumento literário sobre a Cabala é o Livro da Formação (Sepher Yetsirah), considerado anterior ao século VI, onde se defende a ideia de que o mundo é a emanação de Deus.
Transformou-se em objeto de estudo sistemático do eleito, chamado o "baale ha-kabbalah" (בעלי הקבלה "possuidores ou mestres da Cabala "). Os estudantes da Cabala tornaram-se mais tarde conhecidos como maskilim (משכילים "o iniciado"). Do décimo terceiro século em diante ramificou-se em uma literatura extensiva, ao lado e frequentemente na oposição ao Talmud.
Grande parte das formas de Cabala ensinam que cada letra, palavra, número, e acento da Escritura contêm um sentido escondido e ensina os métodos de interpretação para verificar esses significados ocultos.
Alguns historiadores de religião afirmam que devemos limitar o uso do termo Cabala apenas ao sistema místico e religioso que apareceu depois do século XII e usam outros termos para referir-se aos sistemas esotéricos-místicos judeus de antes do século XII. Outros estudiosos veem esta distinção como sendo arbitrária. Neste ponto de vista, a Cabala do pós século XII é vista como a fase seguinte numa linha contínua de desenvolvimento que surgiram dos mesmos elementos e raízes. Desta forma, estes estudiosos sentem que é apropriado o uso do termo Cabala para referir-se ao misticismo judeu desde o primeiro século da Era Comum. O Judaísmo ortodoxo discorda de ambas as escolas filosóficas, assim como rejeita a ideia de que a Cabala causou mudanças ou desenvolvimento histórico significativo.
Desde o final do século XIX, com o crescimento do estudo da cultura dos Judeus, a Cabala também tem sido estudada como um elevado sistema racional de compreensão do mundo, mais que um sistema místico. Um pioneiro desta abordagem foi Lazar Gulkowitsch.

Ensinamentos básicos da Kabbalah





A Kabbalah ensina que, a fim de podermos reclamar as dádivas para as quais fomos criados para receber, primeiro temos que merecer essas dádivas. Nós as merecemos quando nos envolvemos com nosso trabalho espiritual – o processo de transformarmos a nós próprios na essência. Ao nos ajudar a reconhecer as fontes de negatividade em nossas próprias mentes e corações, a Kabbalah nos fornece as ferramentas para a mudança positiva.
A Kabbalah ensina que todo ser humano é uma obra em execução. Qualquer dor, desapontamento ou caos que exista em nossas vidas não ocorre porque a vida é assim mesmo, mas apenas porque ainda não terminamos o trabalho que nos trouxe até aqui. Esse trabalho, muito simplesmente, é o processo de nos libertarmos do domínio do ego humano e de criar uma afinidade com a essência de compartilhar de Deus.
Na vida do dia-a-dia, esta transformação significa desapegar-se da raiva, da inveja e de outros comportamentos reativos em favor da paciência, empatia e compaixão. Não significa abrir mão de todos os desejos e ir viver no topo de uma montanha. Muito pelo contrário, significa desejar mais da plenitude para a qual a humanidade foi criada para obter.

Estudo da cabala






Quando [carece de fontes] perguntaram ao Rav Kook- Cabalista do século XX e Rabino em Israel – quem poderia estudar Cabala, sua resposta foi inequívoca: "Qualquer um que queira", porém, no judaísmo ortodoxo, é permitido o estudo da Cabala apenas aos homens, maiores de quarenta anos de idade, casado e com uma vida "devota" à Torah.
O Rabino Avraham Itzchak Hacohen Kook (1865-1935) foi o primeiro rabino chefe ashkenazi de Israel durante o Mandato Britânico da Palestina, fundador da Yeshivá religiosa e sionista Merkaz Harav, pensador judeu, halachista, cabalista e um afamado estudioso da Torá e jogador de futebol. Ele é conhecido em hebraico como הרב אברהם יצחק הכהן קוק, e pela sigla HaRaAYaH ou simplesmente como "HaRav" (o rabino). Ele foi um dos rabinos mais famosos e influentes do século XX.
De acordo com alguns[carece de fontes] Cabalistas, os dias em que a Cabala era um segredo acabaram. A sabedoria da Cabala manteve-se oculta no passado porque os Cabalistas temiam que ela fosse mal aplicada e mal entendida. E realmente o pouco que escapou gerou muitos mal-entendidos. Porque os Cabalistas dizem que a nossa geração está pronta para entender o real significado da Cabala, e para acabar com os mal-entendidos, esta ciência está agora sendo revelada para todos que desejam aprender. Na verdade não em sua total essencia, pois não seria compreendida ainda.

Principais textos cabalistas







A ciência da Cabala é única na maneira que fala sobre você e eu, sobre todos nós. Ele não trata de algo abstrato, apenas com a forma como são criados e como nós funcionamos em níveis mais elevados de existência.
O primeiro livro na Cabala a ser escrito, existente ainda hoje, é o Sefer Yetzirah ("Livro da criação"), escrito por Abraão, o pai das chamadas religiões abraâmicas, ou "religiões do livro", que são as três grandes religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Os primeiros comentários sobre este pequeno livro foram escritos durante o século X, e o texto em si é citado desde o século VI. Sua origem histórica não é clara. Como muitos textos místicos Judeus, o Sefer Yetzirah foi escrito de uma maneira que pode parecer insignificante para aqueles que o leem sem um conhecimento maior sobre o Tanakh (Bíblia Judaica ,equivalente ao Antigo Testamento) e o Midrash.
Outra obra muito importante dentro da cabala é o Bahir ("iluminação"), também conhecido como "O Midrash do Rabino Nehuniah ben haKana". Com aproximadamente 12.000 palavras. Publicado pela primeira vez em 1176 em Provença, muitos judeus ortodoxos acreditam que o autor foi o Rabino Nehuniah ben haKana, um sábio Talmúdico do século I. Historiadores mostraram que o livro aparentemente foi escrito não muito antes de ter sido publicado.
O trabalho mais importante da cabala é o Zohar (זהר "Esplendor"). Trata-se de um comentário esotérico e místico sobre o Torah(Referente ao Pentateuco do Antigo Testamento), escrito em aramaico. A tradição ortodoxa judaica afirma que foi escrito pelo Rabino Shimon ben Yohai durante o século II. No século XII, um judeu espanhol chamado Moshe de Leon declarou ter descoberto o texto do Zohar, o texto foi então publicado e distribuído por todo o mundo judeu. Gershom Scholem, que foi um célebre historiador e estudante da Cabala, mostrou que o próprio de Leon teria sido o autor do Zohar: Entre suas provas, uma é que o texto utiliza a gramática e estruturas frasais da língua espanhola do século XII; outra é que o autor não tinha um conhecimento exato de Israel. O Zohar contém e elabora sobre muito do material encontrado no Sefer Yetzirah e no Sefer Bahir, e sem dúvida é a obra cabalística por excelência.
Após o Zohar, temos os escritos de Ari, um renomado cabalista do século XVI. O século XX, por sua vez, viu o surgimento dos trabalhos do cabalista Yehuda Ashlag.
Os textos do Ashlag são os mais adequados para a nossa geração. Eles, assim como outras fontes cabalísticas, descrevem a estrutura dos mundos superiores, como ela descende e como o nosso universo, com tudo o que possui, veio a existir.

Cabala no Cristianismo e na sociedade não Judaica






O termo "Cabala" veio a ser usado até meados do século XI, e naquele tempo referia-se à escola de pensamento (Judaica) relacionada ao misticismo esotérico.
Desde esses tempos, trabalhos Cabalísticos ganharam uma audiência maior fora da comunidade Judaica. Assim versões Cristãs da Cabala começaram a desenvolver-se; no início do século XVIII a cabala passou a ter um amplo uso por filósofos herméticos, neo-pagãos e outros novos grupos religiosos. Hoje esta palavra pode ser usada para descrever muitas escolas Judaicas, Cristãs ou neo-pagãs de misticismo esotérico. Leve-se em conta que cada grupo destes tem diferentes conjuntos de livros que eles mantem como parte de sua tradição e rejeitam as interpretações de cada um dos outros grupos.


Ensinamentos cabalísticos sobre a alma humana





O Zohar propõe que a alma humana possui três elementos, o nefesh, ru'ach, e neshamah. O nefesh é encontrado em todos os humanos e entra no corpo físico durante o nascimento. É a fonte da natureza física e psicológica do indivíduo. As próximas duas partes da alma não são implantadas durante o nascimento, mas são criadas lentamente com o passar do tempo; Seu desenvolvimento depende das ações e crenças do indivíduo. É dito que elas só existem por completo em pessoas espiritualmente despertas. Uma forma comum de explicar as três partes da alma é como mostrado a seguir:
Nefesh - A parte inferior ou animal da alma. Está associada aos instintos e desejos corporais.
Ruach - A alma mediana, o espírito. Ela contém as virtudes morais e a habilidade de distinguir o bem e o mal.
Neshamah - A alma superior, ou super-alma. Essa separa o homem de todas as outras formas de vida. Está relacionada ao intelecto, e permite ao homem aproveitar e se beneficiar da pós-vida. Essa parte da alma é fornecida tanto para judeus quanto para não-judeus no nascimento. Ela permite ao indivíduo ter alguma consciência da existência e presença de Deus.
A Raaya Meheimna, uma adição posterior ao Zohar por um autor desconhecido, sugere que haja mais duas partes da alma, a chayyah e a yehidah. Gershom Scholem escreve que essas "eram consideradas como representantes dos níveis mais elevados de percepção intuitiva, e estar ao alcance somente de alguns poucos escolhidos".
Chayyah - A parte da alma que permite ao homem a percepção da divina força.
Yehidah - O mais alto nível da alma, pelo qual o homem pode atingir a união máxima com Deus.


Antiguidade do misticismo esotérico




De acordo com a compreensão tradicional, Kabbalah data do Éden. Ela veio de um passado remoto como uma revelação para eleger os Tzadikim (pessoas justas) e, na maior parte, foi preservado somente para poucos privilegiados[1].
Literatura Apocalíptica pertence aos séculos II e I do pré-Cristianismo contendo alguns elementos da futura Kabbalah e, segundo Josephus, tais escritos estavam em poder dos Essênios, e eram cuidadosamente guardados por eles para evitar sua perda, o qual eles alegavam ser uma antiguidade valiosa[2].
Estes muitos livros contém tradições secretas mantidas ocultas pelos "iluminados" como declarado em IV Esdras xiv. 45-46, onde Pseudo-Ezra é chamado a publicar os vinte e quatro livros canônicos abertamente, de modo a que merecedores e não merecedores pudessem igualmente ler, mas mantendo sessenta outros livros ocultos de forma a "fornece-los apenas àqueles que são sábios" (compare Dan. xii. 10); pois para eles, estes são a primavera do entendimento, a fonte da sabedoria, e a corrente do conhecimento.
Instrutivo ao estudo do desenvolvimento da Cabala é o Livro dos Jubilados, escrito no reinado do Rei João Hircano, o qual refere a escritos de Jared, Cainan, e Noé, e apresenta Abraão como o renovador, e Levi como o guardião permanente, destes escritos antigos. Ele oferece uma cosmogênese baseada nas vinte e duas letras do alfabeto hebraico, e conectada com a cronologia judaica e a messianologia, enquanto ao mesmo tempo insiste na Heptade como número sagrado ao invés do sistema decádico adotado por Haggadistas posteriores e pelo "Sefer Yetzirah". A ideia Pitagórica do poder criador de números e letras, sobre o qual o "Sefer Yetzirah" está fundamentado, era conhecido no tempo da Mishnah (antes de 200DC).


Doutrinas místicas nos tempos do Talmude







Nos tempos do Talmude os termos "Ma'aseh Bereshit" (Trabalhos da Criação) e "Ma'aseh Merkabah" (Trabalhos do Divino Trono/Carruagem) claramente indicam a vinculação com o Midrash nestas especulações; elas eram baseadas em Gen. i. e Ezequiel i. 4-28; enquanto os nomes "Sitre Torah" (Talmude Hag. 13a) e "Raze Torah" (Ab. vi. 1) indicam seu caráter secreto. Em contraste com a afirmação explícita das Escrituras que Deus criou não somente o mundo, mas também a matéria da qual ele foi feito, a opinião é expressa em tempos muito recentes que Deus criou o mundo da matéria que encontrou disponível — uma opinião provavelmente atribuída a influência da cosmogênese platônica.
Eminentes professores rabinos conservam a teoria da preexistência da matéria (Midrash Genesis Rabbah i. 5, iv. 6), em contrariedade com Gamaliel II. (ib. i. 9).
Ao discorrer sobre a natureza de Deus e do universo, os místicos do período Talmúdico afirmaram, em contraste com o transcendentalismo Bíblico, que "Deus é o lugar-morada do universo; mas o universo não é o lugar-morada de Deus". Possivelmente a designação ("lugar") para Deus, tão frequentemente encontrada na literatura Talmúdica-Midrashica, é devida a esta concepção, assim como Philo, ao comentar sobre Gen. xxviii. 11 diz, "Deus é chamado 'ha makom' (המקום "o lugar") porque Deus abarca o universo, mas Ele próprio não é abarcado por nada" ("De Somniis," i. 11).
Spinoza devia ter esta passagem em mente quando disse que os antigos judeus não separavam Deus do mundo. Esta concepção de Deus pode ser panenteísta. Isto também postula a união do homem com Deus; ambas as ideias foram posteriormente desenvolvidas na Cabala mais recente.
Até em tempos bem recentes, teólogos da Palestina e de Alexandria reconheceram dois atributos de Deus: o atributo da justiça (מדת הדין, "middat ha-din") e o atributo da misericórdia (מדת הרחמים, "middat ha-rahamim") (Midrash Sifre,Deut.27): Este é o contraste entre misericórdia e justiça, que é uma doutrina fundamental da Cabala.


Moderna e contemporânea






A Cabala tem crescido a partir do século XVI, com o Rabino Itzhak Luria, conhecido como Ari ("O Leão").Ele oferece, em seu livro Etz Chaim (Árvore da Vida) uma explicação aprofundada das dez sefirot, e as explicações sobre o livro do Zohar (incluindo Idra Rabba).
A partir deste período, muitos cabalistas incentivaram o estudo da Cabala, como relatou o rabino Azulai Orh Hashemesh em seu livro: "A proibição estabelecida no aprendizado da Kabbalah foi um tempo limitado, até em 1490. Desde 1540, é necessário incentivar todos os interessados no livro do Zohar, porque só estudando o Zohar que a humanidade alcançará a redenção espiritual, e Portanto, não é proibido estudar Kabbalah."
Assim também diz o rabino Yehuda Levi Ashlag, cabalista do século XX: "Não há outro caminho para a população em geral, conseguir alguma elevação espiritual e redenção, a não ser com a aprendizagem da Cabala. Este é o método mais fácil e mais acessível."


Dualidade Cabalística





Embora Kabbalah apresentar a Unidade de Deus, uma das críticas mais graves e persistentes é que pode levar longe monoteísmo, em vez disso promover o dualismo. Em seus textos há a crença de uma contraparte sobrenatural de Deus. O sistema dualista afirma que existe um poder bem contra um poder maligno. Existem dois modelos principais de gnóstico-cosmologia dualista: a primeira, que remonta a Zoroastrismo, acredita que a criação é ontologicamente dividida entre as forças do bem e do mal. A segunda, encontrada em grande parte greco-romana como ideologias Neo-platonismo, acredita que o universo conhecia uma harmonia primordial, mas que uma perturbação cósmica resultou um segundo, o mal, a dimensão da realidade. Este segundo modelo influenciou a cosmologia da Cabala.
De acordo com a cosmologia cabalista, as dez sefirot correspondem a dez níveis de criação. Estes níveis da criação não deve ser entendido como dez diferentes "deuses", mas como dez maneiras diferentes de revelar Deus, um por nível. Não é Deus que muda, mas a capacidade de perceber Deus que muda.
Enquanto Deus pode parecer a apresentar natureza dupla (masculino/feminino, compassivo/julgadora, criador/destruidor), todos os seguidores da Cabala têm consistentemente salientado a unidade absoluta de Deus. Por exemplo, em todas as discussões de macho e fêmea, a natureza oculta de Deus existe acima de tudo, sem limite, sendo chamado o infinito ou a "No End" (Ein Sof) Nem um nem o outro, que transcende qualquer definição. A habilidade de Deus para tornar-se escondido da percepção é chamada de "Restrição" (Tzimtzum). O ocultamento torna a criação possível porque Deus pode ser "revelado" em uma diversidade de formas limitadas, que então forma os blocos de criação.
Trabalhos posteriores cabalísticos, incluindo o Zohar, parecem mais fortemente afirmar dualismo. Eles atribuem todos os males de uma força sobrenatural, conhecido como o Achra Sitra[3] (o "outro lado") que emana de Deus. A "esquerda" da emanação divina é um reflexo negativo do lado de "santidade", com que foi bloqueado em combate. [Encyclopaedia Judaica, Volume 6, "Dualismo", p. 244]. Embora neste aspecto o mal exista dentro da estrutura divina do Sefirot, a Zohar indica que o Ahra Sitra não tem poder sobre Ein Sof, e só existe como um aspecto necessário da criação de Deus para dar ao homem o livre arbítrio, e que o mal é a consequência dessa escolha. Não é uma força sobrenatural em oposição a Deus, mas um reflexo da luta interna moral dentro de humanidade entre os ditames da moralidade e da renúncia de instintos básicos.


Cabala e a Tradição Esotérica Ocidental





A Tradição Esotérica Ocidental (ou Hermética) é a maior precursora dos movimentos do Neo-Paganismo e da Nova Era, que existem de diversas formas atualmente, estando fortemente intrincados com muitos dos aspectos da Cabala. Muito foi alterado de sua raiz Judaica, devido à prática esotérica comum do sincretismo. Todavia a essência da tradição está reconhecidamente presente.
A Cabala “Hermética”, como é muitas vezes denominada, provavelmente alcançou seu apogeu na “Ordem Hermética do Alvorecer Dourado” (Hermetic Order of the Golden Dawn), uma organização que foi sem sombra de dúvida o ápice da Magia Cerimonial (ou dependendo do referencial, o declínio à decadência). Na “Alvorecer Dourado”, princípios Cabalísticos como as dez emanações (Sephirah), foram fundidas com deidades Gregas e Egípcias, o sistema Enochiano da magia angelical de John Dee, e certos conceitos (particularmente Hinduístas e Budistas) da estrutura organizacional estilo esotérico- (Maçónica ou Rosacruz).
Muitos rituais da Alvorecer Dourado foram expostos pelo ocultista Aleister Crowley e foram eventualmente compiladas em formato de Livro, por Israel Regardie, autor de certa notoriedade.
Crowley deixou sua marca no uso da Cabala, em vários de seus escritos; destes, talvez o mais ilustrativo seja Líber 777. Este livro é basicamente um conjunto de tabelas relacionadas: às várias partes das cerimônias de magias religiosas orientais e ocidentais; a trinta e dois números que representam as dez esferas e vinte e dois caminhos da Árvore da Vida Cabalística.
A atitude do sincretismo demonstrada pelos Kabalistas Herméticos é plenamente evidente aqui, bastando verificar as tabelas, para notar que Chesed corresponde a Júpiter, Isis, a cor azul (na escala Rainha), Poseidon, Brahma e ametista – nada, certamente, do que os Cabalistas Judeus tinham em mente.



http://pt.wikipedia.org/wiki/Cabala


ALCORÃO

QUE É O ALCORÃO?


O Alcorão é um registro das palavras exatas reveladas por Deus por intermédio do anjo Gabriel ao Profeta Mohammad. Foi memorizado por ele, e então ditado aos seus companheiros, e registrado pelos seus escribas, que o conferiram durante sua vida. Nenhuma palavra de suas 114 suratas foi mudada ao longo dos séculos. Assim, o Alcorão é, em cada detalhe, o único e miraculoso texto que foi revelado a Mohammad quatorze séculos atrás.

DE QUE TRATA O ALCORÃO?

O Alcorão, a derradeira palavra de Deus revelada, é a principal fonte da fé e da prática de todo muçulmano. Ele trata de todos os assuntos relacionados conosco, como seres humanos: sabedoria, doutrina, rituais e lei, mas seu tema básico é o relacionamento entre Deus e Suas criaturas. Ao mesmo tempo ele proporciona orientação para uma sociedade justa, uma conduta decente e um sistema econômico eqüitativo.
HÁ OUTRAS FONTES SAGRADAS?

Sim, a Sunnah, a prática e o exemplo do profeta é a segunda autoridade para os muçulmanos. Um hadith é a narração fiel transmitida a respeito do que o profeta disse, fez ou aprovou. Crer na sunnah faz parte da fé islâmica.
EXEMPLOS DOS DITOS DO PROFETA

O profeta disse:
"Deus não tem misericórdia daquele que não tem misericórdia dos outros"
"Ninguém de vós crê realmente antes de desejar ao seu irmão o que deseja a si próprio"
"Aquele que se alimenta enquanto o seu vizinho está passando fome não é crente"
"O comerciante honesto está associado aos profetas, aos santos e aos mártires"
"O poderoso não é aquele que derruba os outros; o poderoso é aquele que controla e si próprio em um acesso de cólera"
"Deus não vos julga baseado em vossos corpos e aparências, mas perscruta vossos corações e examina vossas obras"
" ‘Um homem caminhava em uma estrada e sentiu muita sede. Encontrando um poço, nele desceu e subiu. Então viu um cão arfando, tentando lamber a lama para amainar a sede. O homem percebeu que o cão estava sentindo a mesma sede que ele sentira antes. Então, ele desceu novamente no poço e encheu o seu sapato com água e deu de beber para o cão. Por isto Deus perdoou os pecados do homem.’ Foi perguntado: ‘Ó Mensageiro de Deus, seremos acaso recompensados por nossa bondade para com os animais?’ Ele respondeu: ‘Há recompensa pela bondade demonstrada por qualquer ser vivo’"
extraídos das coleções de hadith de Bukhairi, Muslim e Baihaqui.


ALCORÃO  (Wikipédia)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alcor%C3%A3o


OS SEGREDOS DO ALCORÃO (Vídeo)
https://youtu.be/oB_scqX4ffA

ALQUIMIA E RELIGIÃO





ALQUIMIA E RELIGIÃO:
NO CRUZAMENTO DO VISÍVEL E DO INVISÍVEL 
José Augusto Mourão


1.    A cultura é uma invenção do homem para curar o medo diante do aspecto primário da vida, aquilo a que Ortega chama a selva em que reina Pan. O homem inventou os seus mitos, o seu mundo de formas para tentar preservar a unidade do que está em baixo e do que está em cima, aquilo a que Raimundo Lúlio chama o “omnia in unum”. Já os pré-socráticos  elaboram a primeira teologia racional, assimilando Deus com a Causa primeira, Causa entendida ainda como Causa material: a Água de Tales, o Fogo-Logos de Heraclito, o Ar de Anaximandro e de Diógenes de Apolónia (cf. As Nuves de Aristófanes). No século V a teologia é já uma ciência, como se pode ver em Platão e particularmente no Timeu ou nas Leis (1. X). Esta teologia vem ligada a um sistema astronómico e a uma doutrina do  movimento: a demonstração da existência de Deus é um exercício da razão pura que pode e deve transformar-se em piedade, mas que, em si mesma, é da ordem da ciência e não da religião 
2.    Muito pouco se tem escrito sobre a alquimia em Portugal e muito pouco se sabe da história da alquimia entre nós, para além de rumores ou indícios, signos ligados, como se sabe, mais à indução e à abdução do que à dedução. A alquimia foi durante muito tempo a ciência dos opostos, como Amorim da Costa lhe chama no livro em muito boa hora aparecido para ilustração de um conflito nunca suficientemente explicitado. O ponto porventura mais luminoso deste livro é aquele onde se mostra com clareza a ruptura epistemológica intrínseca à passagem da visão holística para a visão mecanicista do universo. Leia-se este livro sobretudo como um convite a entrar no Mundo Subterrâneo do Enigma, da Pedra Filosofal, do abismo que nos separa do tempo e do espaço das correspondências e do Uno. O balanço de uma ciência que ligava tudo, como é mister da religião, está feito, em termos de crédito e de débito. O trabalho deve continuar. Manuel Gandra promete-nos um trabalho de fôlego neste domínio. Bem vindo será.  
3.    Os escritos alquímicos são, ao começo, apenas receitas técnicas que passavam de pais a filhos, no Egipto. Preciosas, as fórmulas alquímicas logo se tornaram apanágios divinos (Hermes, Thoth, Isis, Osiris)  ou reais (Cleópatra), só aos “filhos legítimos” e aos “dignos” divulgados. É assim que se constituem recolhas de “ditos” – de Hermes ou de Agathodemon –  receitas técnicas a que se juntavam aforismos sobre os princípios da transmutação e o dogma da matéria primeira que a fundava em razão: assim a palavra famosa, repetida pelos alquimistas e que simbolizava a imagem da serpente que se morde a cauda (ouroboros). Rapidamente surgem tratados e colecçõessobre esta arte sagrada: fabricação do ouro, da prata, das pedras preciosas. Para Festugière, com Zozima (fim do século III) a alquimia torna-se um verdadeiro mysterion, uma ascensão  em que a alma sobe os degraus da escada mística, com baptismo na cratera, morte e regeneração, queda e ressurreição do Primeiro Homem, espelho celeste em que a alma se vê na sua verdadeira natureza. De simples receitas técnicas (Pap. X de Leyde), a alquimia, sob influência da gnose e do neoplatonismo, torna-se uma espécie de um género comum a toda a antiguidade decadente. Nietzsche di-lo melhor do eu ninguém: todo o “caos cosmopolita de afectos e de inteligências”de inspiração alexandrina prospera geralmente em terrenos “decadentes” incapazes de desempenhar este papel e provocando um fenómeno de auto-tortura, paródia vampiresca da circulação ourobórica constitutiva da Grande Obra. 
4.    No seu discurso e na sua prática, a ciência alquímica visava, pois, “uma operação filosófica em que ocorresse não apenas a união de duas formas de matéria, mas também, e sobretudo, a união da forma e da matéria”. Experimental, mística e sotereológica, a alquimia só se tornou uma “disciplina estranha” quando se deu o divórcio dos letrados e das religiões, quando já ninguém acreditava no real ou no mundo como em termos deaparição. Quando, no século XVII, mas com maior incidência a partir do século XVIII, findas as harmonias e as analogias para sempre perdidas, a Razão estabelece uma distância ambígua com a Natureza, e até com a humanidade. Tal acontece quando a visão holística, mágico-vitalista do universo é substituída por uma outra visão, mecanicista, quantificável, lógica e observável. A dissolução do laço entre o homem e o universo é efeito da ciência moderna, coperniciana, kepleriana, galileana, isto é, da descentragem do homem no meio do universo, da crítica da finalidade e de um conceito de lei que alinha os homens ao lado dos outros fenómenos. Isto perturbou a filosofia e mudou as crenças. Desde há quatro séculos que esta crise dura. O exemplo do darwinismo é eloquente. A visão científica do mundo tornou caduco o princípio de analogia que Paracelso levara ao extremo: as plantas medicinais levavam uma assinatura que identificava e autentificava as suas virtudes. Essa visão perdeu-se, em grande parte.  
5.    Todas as filosofias procuraram uma “Arcôntica” da referência (Deus, a Natureza, o proletariado, a vontade de poder). A referência é um conceito-signo que remete para linguagens diversas mas conhecidas e institui uma comunidade de comunicação na continuidade da tradição. Mas é a sedução – semeadora de heterogeneidades e cimento da intersubjectividade - que é  uma fractura que convida a estetizar o objecto pragmático. O próprio da alquimia é a utilização de símbolos por oposição à ciência que, enquanto sistema de troca, de informação, de armazenagem, pretende dar um sentido final e objectivo, ou por oposição à ascese cahn por exemplo, que se despoja de todo o suporte mesmo que seja simbólico. A originalidade fundamental do pensamento alquímico é a sua utilização da linguagem nos confins da indecibilidade do sujeito e do objecto. Esta linguagem é entendida como uma estrutura que ordena o mundo a partir de símbolos. A alquimia é um jogo de formas que se alimenta da cumplicidade e da hostilidade dos elementos, tais como a água e o fogo. Neste modo de circulação simbólico, de reversibilidade e de encadeamento, de constelações, os animais, os vegetais, os homens, os elementos “conversam” uns com os outros e ao mesmo tempo  contrariam-se. O seu elemento “religioso” advém-lhe da sua aptidão para manter a unidade, para ligar.  
6.    A ciência aparece-nos hoje como a antítese da magia. Mas não foi assim na história da ciência. O combate contra a magia ou o pensamento mágico durou séculos, atravessando campos tão diversos como a teologia, a filosofia,  a medicina, a ciência. Em 1267, Boaventura toma a palavra na igreja franciscana de Paris, misturando o aristotelismo e um conjunto de doutrinas, de superstições ou de práticas mágicas. R. Grosseteste, que escreve as suas obras na primeira metade do século XIII, coloca a astrologia na primeira fila das ciências e acredita na transmutação dos metais. Dante junta no mesmo ‘céu’ do  Paraíso Tomás de Aquino, Siger de Brabant e Alberto Magno (cf. Par. X, 1-148). Não há, então, incompatibilidade entre a Grécia e a Revelação, o averroísmo latino, e o intelectualismo integral entram no mesmo convívio de transmutação das ideias. A ciência experimental, que teve em R. Bacon um dos seus maiores epígonos, tem uma dívida para com as ciências  a que chama ocultas. O Doutor Fausto, de Marlow, no final do século XVI, esperava da magia um total poder sobre a natureza. Para Newton, que praticou a alquimia muito tempo,  a gravitação era um fenómeno oculto (inexplicado). Teofrasto Paracelso (1493-1541), o “médico errante” da filosofia química, é uma das figuras mais interessantes deste combate e Amorim da Costa dedica-lhe um dos mais interessantes capítulos do seu livro. O seu tempo abre duas grandes vias para pensar o projecto de uma união secreta do homem com a natureza, uma que passando pelo filtro de forças misteriosas, divinas ou demoníacas e de procedimentos técnicos de tipo iniciático,  abarca a alquimia, a necromancia e a magia; outra que passa pela descrição rigorosa dos fenómenos, tendo em conta os progressos da técnica e que combate o recurso ao esoterismo. De um lado, Leonardo  e depois Galileu, do outro, Paracelso, o bispo alquimista Erhart Baumgartuer ou o erudito da alquimia, da kabala e da astrologia Johan Tritemius. O corpo humano é um sistema químico – ideia revolucionária – em que têm papel fundamental os dois princípios tradicionais dos alquimistas, o enxofre e o mercúrio, a que Paracelso acrescenta o sal. O mercúrio é volátil, o sal dá solidez, o enxofre é princípio de combustibilidade. As doenças resultam das múltiplas modalidades do seu desiquilíbrio. Não são uma desarmonia dos “humores”, mas dos “poderes” exteriores que agem sobre o homem: oens astrale, o ens veneni, o ens naturale, o ens spirituale e o ens Dei. Parecelso estuda o ácido nítrico, os sais e outros sulfatos, produtos narcóticos, éters, etc. Dá aos alquimistas, ocupados na procura da pedra filosofal que devia transmudar os outros elementos em ouro, a tarefa nova de transformar minerais e metais em medicamentos. A medicina de Paracelso é uma filosofia da natureza, arte de ver em toda a realidade animada o invisível princípio espiritual (astrum, ou virtus ou scientia) em que se articulam mil forças ou arcanes, disseminados na natureza. Na sua visão, o homem é corpo mas também, enquanto microcosmo, imagem do universo, havendo entre o microcosmo e o macrocosmo uma secreta correspondência. Ele inventa um novo olhar sobre as complexidades visíveis e invisíveis da natureza. O caminho estará aberto para que o olhar se mude em “mão” – uma mão que a Razão dirige e que, via ciência e técnica, “manipula”, utiliza, domina a natureza 
7.    A recusa da constatação de divórcio entre a alquimia e a filosofia está na origem da Naturphilosophie que apareceu no século XIX. O estudo da física sagrada e da teosofia revela uma face da modernidade marginalizada por filósofos como Kant e Hegel10 . O princípio moderno da autonomização das ciências relativamente a uma qualquer tutela ideológica vai de encontro à exigência de libertar as ciências humanas de qualquer juízo normativo, mas acaba por desembocar numa concepção cientista das ciências, afinal, uma nova figura de submissão à ideologia. A ciência tornou-se moralismo dogmático. Lamentavelmente, o sucesso da ciência suscitou mais a idolatria  do que o seu reconhecimento como um conjunto de métodos específicos. De facto, o que faz o seu sucesso é menos o método que o tipo de objecto a que se aplica uma reflexão liberta dos antigos constrangimentos do sagrado. A ciência mais fundamental, a física, em vez de se unir sob a égide da electrodinâmica, ou da mecânica, como se esperava no fim do século XIX, dividiu-se em numerosos ramos; entre estes, dois essenciais, a relatividade e a física quântica, andam ainda à procura da sua síntese. Hoje, fiel à sua reputação feita de rigor e de exigência, a razão afirma sem complexos o seu dever de duvidar, impor limites: depois da arrogância, a humildade. O método racional ensina-nos que é doravante irrisório procurar através dele - e só por ele- atingir uma verdade absoluta e definitiva. A Verdade, se existe, não é entidade sobre que o método racional pode desembocar. O método racional permite demonstrar a coerência (a não-contradição) duma verdade cujos fundamentos ontológicos (os pressupostos de existência) são colocados a priori, de uma maneira indemonstrável, i.e., axiomática.  
8.    A ruptura da alquimia com a química prende-se não com a sua componente químico-tecnológica, mas com a sua reivindicação de ser uma experiência mágico-religiosa nas suas relações com a substância. A Matéria que se esforçava por transformar e transmutar era uma matéria sagrada. Entende-se geralmente a magia como uma acção à distância, como tecnologia não controlada geometricamente. “A Física é uma magia controlada pela geometria”, escreve R. Thom, ao tratar da relação entre magia e ciência. A relação entre magia e ciência é uma relação entre dois modos de controlo do imaginário; no caso da magia, o imaginário das pregnâncias é controlado pela vontade dos homens (ou de alguns, os mágicos, peritos em práticas eficazes); no caso da ciência, o controlo é definido pela generatividade interna à linguagem formal que descreve as situações exteriores e sobre que o homem não tem domínio11 . A magia é fundamentalmente uma procura de eficácia e de poder. É pervivaz ainda hoje (E. Garin) a ideia de uma ordem universal e de uma ligação necessária dos fenómenos: “o laço reside na ideia dum universo vivo, feito de correspondências secretas, de simpatias ocultas, em que por todo o lado sopra o espírito, em que se entrecruzam por todas as partes signos que têm uma significação escondida”. A distinção entre magia e ciência tem de procurar-se no carácter muito mais constringente da nossa representação do espaço, como não o era entre os primitivos. 
9.    Não há dúvida que o nascimento da ciência moderna desestabilizou o equilíbrio multi-secular do pensamento ocidental. A aliança entre a reflexão grega e a tradição cristã rompeu-se. Ao mesmo tempo, as instituições que transportavam o religioso – Igrejas cristãs – entraram em crise de credibilidade e de substância social. O interesse, o fascínio por aquilo a que os sociólogos chamam a “nebulosa místico-esotérica” (F. Champion) alimenta nostalgias, encena exotismos, manifesta o desejo de uma transcendência ameaçada pelo imanentismo do pensamento que saíu das Luzes. Contudo, o mundo moderno alimenta-se das correntes heterodoxas – místicas – do cristianismo. Troeltsch tinha essa consciência, ao falar de “religiosidade vagabundeante”, de cariz “naturalizante”, ou mesmo “panteísta”, ou daquilo que está por trás do pensamento moderno, em especial do idealismo alemão de Hegel ou de Shelling, em matéria de pensamento místico ou esotérico. O momento místico ocupa um lugar de destaque na questão da religião na modernidade. O momento epifânico, presente na fenomenologia de M. Eliade (1949) como uma espécie de presentificação velada do Sagrado, emergindo através dos signos, imanentizou-se sob formas diversas que os estudos culturais analisam como “major upheavel”, “cumulative”, “illuminative”, “relieved”. A epifania ocorre nessas situações interaccionais problemáticas em que a pessoa se confronta com uma crise12 . A situação em que vivemos caracteriza-se: pela iminência do desencantamento do mundo, o cinismo, uma religiosidade reaccional que se difunde. Três rupturas marcam o niilismo moderno: entre a natureza e o homem; entre o homem e Deus; entre o ser humano e ele próprio. No começo do sec. XVII produziu-se uma reviravolta do conhecimento, quando Galileu contestou a realidade das qualidades sensíveis do universo opondo-lhe objectos materiais extensos dotados de figuras. Com Descartes e a formulação matemática deste conhecimento geométrico funda-se a ciência moderna, a abordagem físico-matemática do universo material. O homem é um composto de partículas materiais e a sua realidade depende de determinadas estruturas de organização destas partículas, estruturas químicas e biológicas. Parte do universo material, o homem explica-se a partir desse universo, como peça de uma imensa máquina de funcionamento cego da qual depende. Não há outro tipo de conhecimento que o da ciência galilaica, i.e. da física moderna? Há as qualidades sensíveis das coisas de que Galileu abstrai. O campo da ciência constitui-se a partir delas.  
10.  Haverá alguma a pertinência em falar do regresso do religioso? Diga-se que o mundo não é uma cena de teatro em que a ordem religiosa desaparece e a seguir reaparece. O “regresso” não recupera um qualquer ponto de partida. O destino das representações culturais não é a replicação, mas a transformação. Melhor seria falar, então, de metamorfose. Ultrapassou-se a situação de irrisão em que estava a religião – a visão voltaireana (que fazer com essa velharia de Deus, “vieille bougie brûlant au noir des siècles”?) e polémica das Luzes contra a intolerância obscurantista,  bem como o drama ilustrado da morte de Deus. “Quando se atira o dogma para a incredulidade geral, é ao cúmulo da credulidade que se regressa”13 . Renan, Afonso Costa, o marxismo em geral, anunciavam a senescência da religião para meados do século XX. Hoje, o postulado sociológico do desaparecimento da religião é cada vez mais controverso. Mas o cinismo permanece aceso, substituindo o niilismo europeu igualitário, pondo em brecha qualquer ética de convicção: “libertando a ‘ sexualidade’ , o cinismo substitui-o progressivamente pela morte na função ‘de rito secreto e de interdito fundamental’”14 . Em linguagem moderna, o mundo da astrologia e da magia obedece ao determinismo.  
11. É verdade que a alquimia passava ao lado do conhecimento quantitativo e mecanicista do mundo. Amorim da Costa fornece um argumento de peso em favor da alquimia ao lembrar que este trabalho se corporizava numa visão mágico-holística. “De qualquer modo que a encaremos, essa solução de descontinuidade foi provocada, fundamentalmente, pela consagração de uma visão mecanicista em detrimento da visão holística, em cuja origem está, muito mais que a contraposição do irracional contra o racional, a contraposição do entendimento (episteme) contra o uso (techne)”15 . A visão cosmológica que cultivava era bem mais respeitadora da irredutibilidade do real a um modelo formal ou mecânico. Então, o alquimista era uma das figuras do co-criador e salvador fraterno da Natureza. Então tudo circulava: o alto e o baixo, a imanência e a transcendência. Hoje a situação corresponde a um outro estádio: “estádio viral, fractal, da insolidez de todas as coisas que se dispersam num espaço secretamente despolarizado. Já nada tem por função significar, mas encher o espaço vazio da linguagem que se tornou o lugar aleatório de todas as promiscuidades, o lugar da indistinção e da obscenidade da fórmula. Já nem sequer as ideias se confrontam. Tudo liberta a sua força repulsiva. Estádio da reacção em cadeia, cujo protótipo é o da energia atómica”16 . Estará para sempre perdido o charme da alquimia?  
12. Nós já não acreditamos numa arquitectónica da razão pura, na unificação da experiência possível com a ajuda apenas de um único sistema de categorias, e as teorias de grande unificação pertencem, em física, aos sonhos da razão. O homem de hoje vê-se como um herdeiro do antigo poder de Deus: para quem doravante, nada é impossível. Sem traços de Deus, pura imanência, ele é a melhor efígie dos niilistas russos. Um outro fenómeno, agora teológico que contribuíu para a constituição do niilismo moderno: o primado da liberdade sobre a razão em Deus, como o expõe Descartes; a inescrutabilidade dos desígnios de Deus (Malebranche). Se Deus é liberdade, o tempo não tem a continuidade de um encadeamento lógico e as acções de Deus não são a execução de um plano. A razão é o exercício por Deus do seu querer: acção e liberdade. Se Deus é inescrutável, a ideia de relação causal é uma miragem (Hume). Uma terceira dissolução: a do “eu”. E. Mach: “O ‘eu’ não é salvável”. Esta é a fonte mística do niilismo cristão. Há convergência entre o positivismo agnóstico e o “niilismo” cristão sobre o questionamento doego que Kant qualificava de “transcendental”: para E. Mach, esse campeão do racionalismo, tal suposição é supérflua17 .
  13. O cristianismo, ao dessacralizar o mundo, deu-nos o meio de transformar em técnica a imitação criadora que o rito só pode produzir uma vez. A técnica enraiza-se no rito. No universo aristocrático o experimental aparece sempre como impuro e populacho. A ciência impôs-se aos homens porque, por razões morais, religiosas, se deixou de perseguir as bruxas. Aquilo que a religião e a alquimia ligavam, a ciência, a tecnociência sobretudo, desligam. A alquimia, porque profundamente antropocêntrica, representou um esforço de imanentizar a transcendência, não de a reduzir a uma ficção pia. O livro de Amorim da Costa é um convite para revisitarmos  um modo de intervenção, colaboração, no processo natural que visava a sua perfectibilidade, não a sua exaustão ou aniquilamento. As transmutações, afinal, sempre foram possíveis: “Repete-se o sonho alquímico, durante séculos objectivado na tentativa de preparação do homunculus”. Somos hoje sensíveis aos efeitos de dessimbolização, desontologização, desfinalização, etc. da ciência moderna e contemporânea. Contra esta forma de niilismo é que se levantam o “princípio antrópico”, o “princípio teológico” e a ética18 . Há, entre a teologia e a ciência um diferendo antigo, uma divergência radical na apreciação do que é o ser verdadeiro do homem. Na ciência o homem está ligado ao conhecimento que dele podemos ter e depende deste e dos seus progressos. A ciência dirá o que seremos. A verdade do cristianismo é irredutível à da ciência, a qual participa da “sabedoria do mundo”. Crer não é o substituto ainda imperfeito de um ver ausente, mas a substituição de um modo de manifestação inadequado por uma revelação, que é de uma outra ordem. A vida é esse movimento caracterizado pelo Dom de si ou “doação” que fica de fora de qualquer objectivação  ou formulação onto-teológica. A ciência - e em particular a biologia - nada sabe desta doação porque os seus conceitos são puramente operatórios. Quer dizer que é estranha ao “mundo da vida” (oLebenswelt de Husserl). “A vida não se interroga nos laboratórios. Na biologia não há vida, há apenas algoritmos. Os biologistas sabem o que é a vida, mas não o sabem enquanto biologistas - porque a biologia nada sabe disso. Sabem-no como qualquer um de nós porque também vivem, gostam da vida, do vinho, das mulheres, brigam por um lugar, fazem carreira, experimentam também a alegria das partidas, dos encontros, a chatice das tarefas administrativas, a angústia da morte” (F. Jacob). Não estamos perante um descrédito da razão, mas diante da recusa dos dogmatismos que pensa captar Deus através de formulações e o real através de formalismos matemáticos.
  14.  Se o conhecimento da ciência moderna reduz o homem a uma parte do universo material, que diz do ser verdadeiro do homem o cristianismo? Que ele é o Filho. Não o filho duma vida biológica que não existe, mas apenas o da vida que existe, a vida fenomenológica absoluta que é a essência de Deus. Esta vida não pode “considerar-se”, ver-se. A vida escapa ao pensamento, à intencionalidade e ao conhecimento físico-matemático do universo material. A vida que não se mostra no mundo revela-se a si própria na sua auto-revelação patémica, experimentando-se a si mesma como uma força invencível. É desta Vida invisível e invencível que o homem é o Filho. No mundo das partículas não há nenhum Eu, nenhum homem. O homem só é possível enquanto Filho de Deus - essa é a tese fundamental do cristianismo. As reacções religiosas e metafísicas recusam o conteúdo e denunciam a apresentação da tecnociência como “referido” último. Entende-se que preservem os “referidos” tradicionais que são Deus, espírito, natureza, etc. Também recusam subordinar o valor do discurso simbólico à eficiência da operatividade física e matemática: Deus (sive homo) ex verbo e não Deus (sive homo) ex machina. São reações de natureza onto-teológica em cuja sombra se aninham os ocultismos, a astrologia, o espiritismo, expressões religiosas tradicionais, militantes ou integristas, o neo-tomismo, o neo-kantismo e finalmente uma afirmação renovada da metafísica, até dos limites da tecnociências. B. d´Espagnat, por exemplo, recusa pensar a ciência como puramente experimental e operatória (tecnociência), lançando pontes com a  linguagem da filosofia ou da religião (o espinozismo). A introdução de um “princípio antrópico” é uma outra maneira de conjurar o niilismo associado à tecnociência. Concluamos, pois. As relações entre a alquimia e a religião (melhor, a teologia) são de conivência - pelo seu lado antropológico e cosmológico - e de separação - pela revelação de filialidade que une os humanos uns aos outros. O “princípio teológico” contraria a ideia que o homem encontre uma finalidade absoluta em si próprio. Nós vimos da guerra dos paradigmas, da luta pela hegemonia nas ciências, do divórcio, primeiro, depois da coabitação, do concordismo entre as ciências da natureza e as ciências do espírito. Hoje, a intercrítica que  Atlan recomenda, o encontro entre continentes outrora intraductíveis,  tornou-se desejável e possível. Apesar da dúvida que paira sobre a distinção ciência vs magia (La Mélodie secréte, de Trinh Xuan Thuan). Apesar da distinção que permanece entre a ciência sobre Deus (a teologia) e a fé. Apesar daquilo que as divide, a alquimia e a religião em qualquer parte se tocam: como o visível e o invisível.